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		<title>Caboclo d’água</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marceloproprietario]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 22:43:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Márcio Vicente Em minhas idas a Pirapama uma visita que jamais deixei de fazer, mesmo se o tempo fosse curto, era ao Zezito, amigo de meu pai. Ele fora ajudante de caminhão de nosso tio Arquimínio, “valendo por dois” pela força física e disposição para o trabalho. Dizem que era valentão e que, certa [&#8230;]</p>
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<p>Por <strong>Márcio Vicente</strong></p>



<p>Em minhas idas a Pirapama uma visita que jamais deixei de fazer, mesmo se o tempo fosse curto, era ao Zezito, amigo de meu pai. Ele fora ajudante de caminhão de nosso tio Arquimínio, “valendo por dois” pela força física e disposição para o trabalho. Dizem que era valentão e que, certa vez em Belo Horizonte, enfrentara dois guardas-civis, pondo-os para correr. Fez apenas o curso primário, era polido no trato com as pessoas e possuía inteligência privilegiada.</p>



<p>Quando meu nosso foi prefeito e, numa parceria da Prefeitura com a Paróquia de Sant’Ana a cidade ganhou seu primeiro sistema de iluminação elétrica, o Zezito foi contratado para “tomar conta” do equipamento. Para girar a pesadíssima manivela e fazer o grande motor a diesel “pegar”, só mesmo alguém com força física como a dele.</p>



<p>Tendo como instrutor o empresário e mecânico Cleto Verdolin, de Sete Lagoas, Zezito não só aprendeu a pôr a máquina para funcionar como, também, assimilou conhecimentos para reparar seus pequenos defeitos. O sistema elétrico funcionou assim por muitos anos, até que, ainda no governo de nosso papai, a Prefeitura contratou com a Companha Cedro Cachoeira o fornecimento de 100 kilowats de energia, produzida em sua usina da Serra do Cipó e que chegava a Pirapama através de uma rede de alta tensão que tinha início em Jequitibá.</p>



<p>Zezito ampliou seus conhecimentos e aprendeu o ofício de eletricista. Aliás, numa de minhas visitas, mostrou-me um livrinho de capa dura – “Manual do Eletricista” – chamando a atenção para a inscrição da contracapa. Lá estava: “Impresso na França”. Diante de minha curiosidade sobre a data da publicação (1949), explicou: “Foi presente de seu pai, e guardo como lembrança. Devo a ele muitas obrigações”.</p>



<p>Numa de minhas visitas e depois de colher informações sobre a história de Pirapama, que ele conhece como ninguém, perguntei sobre aquela “arenga antiga” de o Antônio Cabeçudo ser filho de caboclo d’água&#8230; Meu interesse tinha razão de ser: Cabeçudo, exímio furador de cisternas, era meu companheiro de pescarias no Rio das Velhas. Garoto ainda, papai só me permitia essa “aventura” com ele: excelente nadador e canoeiro conhecia, como ninguém, as traiçoeiras do rio, e tinha uma exagerada sorte para a pescaria.</p>



<p>Sou testemunha de que enfiava a cabeça n’água, dizia estar “assuntando” os peixes para escolher o anzol adequado e a melhor isca. Mostrava-se infalível em sua investigação. Cabeçudo era também compadre de papai, e acredito que, já bem velho e fraquejando, tenha sido contratado para fazer pequenos serviços em nossa casa. Lembro-me, ainda, de que gostava de uma boa cachaça e, quando exagerava nas doses, fazia-se de valentão e provocava briga. Desafiava colegas de bebedeira dizendo ser “mais macho” do que qualquer um deles. A cena se repetia: abria a braguilha e exibia os colhões, onde quem quisesse poderia conferir: havia três “bagos”&#8230;</p>



<p>Zezito, ante a pergunta sobre a origem misteriosa do Cabeçudo, que todos em Pirapama “sabiam” ser mesmo filho de caboclo d’água, mostra-se surpreso: “Então ocê não conhece a história?”.</p>



<p>O avô de Zezito era canoeiro e ganhava a vida negociando com os moradores das margens do Rio das Velhas: enchia sua grande canoa com ferramentas, armarinhos, sapatos, chapéus, armas e munição (e “mil” outros produtos) que adquiria a crédito no comércio do arraial e os vendia rio abaixo. Viagem de quatro dias descendo (segunda a quinta), ajudado pela correnteza, e de dois dias subindo (sexta e sábado), navegando devagar, à força do remo.</p>



<p>Sempre dormia na embarcação, e tinha os pontos certos onde poitar para passar a noite. Um desses locais era a barra de um córrego, nas proximidades da Fazenda da Taboquinha, próspera e afamada propriedade da Família Monteiro.</p>



<p>Certo fim de tarde e já se preparando para o pernoite, o barqueiro sente a canoa adernar; e nem demorou a descobrir a causa: duas grandes mãos, peludas, seguravam nas bodas da embarcação. Num átimo, pega o facão e dá um golpe. Vê quatro dedos caírem a seus pés, no fundo da embarcação, e ouve o grito lancinante de um vulto que mergulha no caudal.</p>



<p>Imediatamente, a água se turva de vermelho e o barqueiro não sufoca um grito: “Meu Deus. É caboclo d’água”. Recolhe a poita e, com remadas vigorosas, desce o rio até pouso mais seguro.</p>



<p>Na fazenda, a mulher do proprietário reclama com o capataz que “tem gente roubando milho na horta”. De fato, ela cultivava pequena quantidade do cereal nos fundos da casa grande, junto com as hortaliças, para ter à mão, com rapidez e facilidade, algumas espigas verdes para fazer mingau ou assar – iguarias que todos muito apreciavam.</p>



<p>O empregado logo se prontifica a dar uma incerta no local e pegar o ladrão. E fez isso já no dia seguinte. Com o auxílio de alguns vaqueiros, tão espertos quanto curiosos, o cerco foi montado. Já de madrugadinha, eles escutam barulho de pés de milho sendo quebrados e correm para o local. Logo identificam um vulto e partem para aprisioná-lo com o auxílio de laços e arreatas.</p>



<p>Há luta, gritos e imprecações, mas o ladrão acaba dominado e levado para o paiol da fazenda. Lá, a surpresa: era um homem nu, peludo, baixinho e muito feio, que “rosnava” e babava, atacando quem se atrevesse a se aproximar. E havia nele algo de curioso: faltavam quatro dedos na mão esquerda. Sinhá foi avisada e, com grande acompanhamento de serviçais, foi ao paiol. Não precisou se aproximar muito para identificar o intruso: “É caboclo d’água! E agora, meu Deus?”</p>



<p>Nem Zezito sabia como aquele “elementar” foi tratado, acostumou-se com a vida na fazenda, aprendeu uma linguagem rudimentar, com a qual se fazia entender e já prestava alguns pequenos serviços, como buscar lenha e varrer o terreiro&#8230; Tal processo de “aculturação” foi lento e de pouca utilidade. Caboclo – era assim que o chamavam – dormia numa cama improvisada no paiol, não adquiriu hábitos civilizado para comer e nem nutria algum tipo de afeição por alguém.</p>



<p>Durante certo tempo, foi alvo da curiosidade dos que visitavam a antiga, grande e famosa propriedade rural. Depois, nada mais parecia perturbar a rotina dos Monteiros, exceto o dia em que uma empregada chamou a atenção da patroa para uma “novidade”: Ritinha – uma boba adotada, de mais ou menos vinte anos e que vivia na fazenda (aliás, no sertão, toda fazenda abrigava um bobo&#8230;) – apareceu de barriga “inchada”.</p>



<p>O diagnóstico saltou à vista: estava grávida&#8230; do Caboclo. Dessa união natural, ditada pelo extinto, nasceu Cabeçudo&#8230;</p>



<p>De volta a Sete Lagoas, silencioso e mergulhado em pensamentos que me levavam à velha terra e aos meus tempos de criança, tento lembrar-me como era o amigo. Baixinho, pernas e braços curtos e peludos, cabeça grande e desproporcional com o tronco, cabeça “simiesca” (só agora, recompondo seu retrato, posso notar os detalhes), de fato, nada no Cabeçudo se parecia com “gente”.</p>



<p>Vendo-me como em estado de enlevo e perplexidade, Vera pergunta: “Você acreditou nessa história?” Meu Deus! Como duvidar? Convivi com ele&#8230;</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="768" height="1024" src="https://tempoverde.agr.br/wp-content/uploads/2026/02/260224-Caboclo-Dagua-768x1024.jpg" alt="" class="wp-image-2862" style="width:800px;height:auto" srcset="https://tempoverde.agr.br/wp-content/uploads/2026/02/260224-Caboclo-Dagua-768x1024.jpg 768w, https://tempoverde.agr.br/wp-content/uploads/2026/02/260224-Caboclo-Dagua-225x300.jpg 225w, https://tempoverde.agr.br/wp-content/uploads/2026/02/260224-Caboclo-Dagua-1152x1536.jpg 1152w, https://tempoverde.agr.br/wp-content/uploads/2026/02/260224-Caboclo-Dagua.jpg 1200w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Na mitologia Tupi-Guarani, o caboclo-d&#8217;água, também chamado negro-d&#8217;água e bicho-d&#8217;água, é um dos mitos aquáticos mais populares na região do vale do rio São Francisco.<br><br>Ninguém sabe de onde surgiu. Vive nas barrancas e alagadiços. Segundo as descrições mais comuns, é baixo, troncudo, musculoso, muito forte, tem a pele negra. Apesar de seu tipo físico, movimenta-se de forma muito rápida e ágil.<br><br>Às vezes sai do rio e caminha pela terra, geralmente para praticar alguma vingança ou fazer algum favor, mas nunca se afasta muito das margens. Para muitos, é um só e possui poderes para estar em vários lugares ao mesmo tempo.<br><br>Dizem que possui o temperamento enfezado e não nutre grandes simpatias para com os pescadores e remeiros. Agarra o fundo das canoas e barcos, balançando-os até os virar ou encalhando-os. Seu corpo é à prova de balas. Para evitar encontrá-lo, deve-se fincar uma faca no fundo da embarcação. Porém, se for bem tratado, o caboclo torna-se benfazejo, ajudando nas pescarias e evitando enchentes. Para agradá-lo, basta oferecer-lhe fumo.</em></figcaption></figure>



<p></p>
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