O mês de março representa um ponto de inflexão no manejo alimentar dos equinos. A transição do verão para o outono provoca alterações importantes na qualidade das pastagens, no comportamento alimentar dos animais e nas exigências nutricionais do plantel. Ignorar esse período de ajuste pode resultar em perda de peso, queda de desempenho, distúrbios digestivos e até predisposição a cólicas. À medida que as chuvas diminuem e as temperaturas começam a cair, as forrageiras reduzem o crescimento vegetativo, aumentando o teor de fibra e diminuindo a digestibilidade e o valor proteico. Por isso, o manejo nutricional nessa fase deve ser preventivo e planejado, evitando mudanças bruscas na dieta.
Avaliação das pastagens: entender antes de suplementar
A avaliação visual e técnica das pastagens é o primeiro passo. Capim muito passado, com colmos rígidos e folhas amareladas, indica menor teor de proteína bruta e maior lignificação da fibra, o que reduz o aproveitamento pelo cavalo.
Alguns pontos importantes a observar:
Altura e densidade do pasto; Presença de áreas rapadas ou superpastejadas; Uniformidade da forragem; Espécies predominantes e estágio de crescimento; Presença de plantas invasoras ou tóxicas. Sempre que possível, análises bromatológicas da forragem fornecem dados mais precisos sobre proteína, energia, fibra e minerais, permitindo ajustes nutricionais mais eficientes e econômicos.
Transição gradual para volumosos conservados
Com a queda da qualidade do pasto, o uso de volumosos conservados torna-se essencial. O feno passa a ter papel central na dieta, especialmente para animais em trabalho, reprodução ou crescimento. A introdução do feno deve ser gradual, ao longo de 10 a 15 dias, para evitar alterações bruscas na microbiota intestinal. O fornecimento ideal gira em torno de 1,5% a 2% do peso vivo do animal em matéria seca, considerando também o consumo residual de pastagem.
Fenos de boa qualidade devem apresentar: Cor verde-clara a verde-oliva; Aroma agradável; Ausência de poeira, mofo ou fungos; Talos finos e boa proporção de folhas. Silagens pré-secadas (haylage) também podem ser utilizadas, desde que bem manejadas, armazenadas corretamente e adaptadas gradualmente à dieta.
Ajuste da dieta concentrada
Em março, muitos criadores observam queda no escore corporal dos animais. Antes de aumentar excessivamente o concentrado, é essencial garantir uma base volumosa de qualidade, pois o cavalo é um herbívoro dependente de fibra para o bom funcionamento do trato digestivo.
Quando necessário, a suplementação com ração deve considerar: Nível de atividade do animal (lazer, esporte, trabalho); Estado fisiológico (gestação, lactação, crescimento); Condição corporal atual. O fracionamento do concentrado em duas ou três refeições diárias ajuda a reduzir riscos de fermentação excessiva e cólicas.
Suplementação mineral estratégica no outono
Outro ponto crítico na transição de estação é a suplementação mineral. Pastagens em final de ciclo apresentam deficiência principalmente de fósforo, cobre, zinco e selênio, além de desequilíbrios na relação cálcio:fósforo. A oferta de suplemento mineral específico para equinos deve ser contínua, em cochos cobertos e de fácil acesso. Minerais quelatados e a inclusão de vitaminas A, D e E auxiliam na manutenção da imunidade, fertilidade e saúde muscular. Em animais submetidos a maior esforço físico, o uso de suplementos eletrolíticos pode ser mantido, mesmo com a redução das temperaturas, especialmente em regiões ainda quentes.
Prevenção de distúrbios digestivos
Mudanças de dieta são uma das principais causas de cólica em equinos. No outono, a redução da ingestão de água também merece atenção, pois temperaturas mais amenas fazem o animal beber menos, aumentando o risco de impactações intestinais.
Medidas preventivas incluem: Água limpa e fresca sempre disponível; Estímulo ao consumo hídrico; Uso de sal branco à vontade; Introdução lenta de novos alimentos; Manutenção de rotina alimentar regular.
Condição corporal como indicador-chave
O acompanhamento do escore de condição corporal (ECC) deve ser feito mensalmente. O ideal é manter os animais entre 5 e 6 na escala de 1 a 9. Perdas rápidas de condição indicam falhas no ajuste alimentar e devem ser corrigidas imediatamente.
Considerações finais
A transição alimentar do verão para o outono é um período estratégico e, ao mesmo tempo, delicado na criação de cavalos. Ajustes bem planejados garantem manutenção da saúde digestiva, estabilidade da condição corporal e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis na propriedade. Antecipar-se à queda da qualidade das pastagens, investir em volumosos de qualidade e utilizar suplementos de forma racional são atitudes que diferenciam o manejo técnico do improviso. No campo, quem planeja o outono, colhe resultados positivos durante todo o inverno.



