Por Ti Rei (Reinaldo Pessoa)
Acordei quando a madrugada ainda dominava o tempo, deitado no catre, com o pelego grande servindo de colchão, e com a capa 3 Coqueiros me protegendo por inteiro. Além do barulho da chuva fina que caia mansamente, ouvia também o barulho da égua pastando a grama chata recém brotada com as últimas e tão esperadas chuvas. Abri a porta do rancho, sai na varandinha, fui recebido por um vento frio acariciando meu rosto úmido. A égua parou de pastar, olhou pra mim: “É Fama, é já que vamos embora”. Ela acenou afirmativo.
Aticei o fogo na fornalha, coloquei a água e o açúcar pra ferver. Madrugada é hora pra pensar. Abrindo a porteira da ideia, colocando nesta imensidão de Serra, meus pensamentos, livres, imaginativos, sem esbarrar em nada, revivendo, fazendo planos, sonhando. Sonhar é bom, pesadelo é que é ruim mesmo. Lembrei dos lindos filhos e da mulher amada. Só não vieram porque não avisei.
A fogueira ardia, a água fervia, meus olhos presos nas coloridas labaredas, e o cheiro inconfundível da candeia, usada como lenha. Coloquei aquela medida que sabemos do pó de café, na água, misturei bem. Um bom pedaço de queijo derretido dentro do pão. Café cheiroso, saboroso, com a mesma doçura da vida.
Em meu corpo fiz o sinal da cruz, lembrando de dar o tradicional balanço, nas boas e más ações. Lembrei das inúmeras cavalgadas. Estava feliz. Eu combino muito bem comigo. Então é colocar na balança da vida, até os 70 anos, tudo bom, tudo que me foi destinado. A balança ficou com os pratos equilibrados assim que coloquei na concha os merecimentos.
A justiça Divina é implacável, precisa. Pedi que nesta idade que inicia, 71 anos, eu tivesse a felicidade que merecesse. Estou chegando aos meus melhores anos, eu já sorri, eu já chorei, meus melhores amigos estão sempre ao meu lado.
Quantos anos em tenho? 70 anos eu já vivi. Quero viver bem os anos que ainda me restam. Nossa maior força nasce na nossa capacidade de superar os problemas, não na ausência deles.
A neblina não deixou o sol aparecer. A chuva parou. Encabrestei a égua. Com o facão raspei o lombo antes de colocar a manta protetora. Égua selada, ajeitei os pertences no alforje, aquele um recém ajeitado na Selaria Sete. A capa no porta-capa, coloquei o pelego sobre a sela.
Entrei no Rancho, conferi tudo e tranquei, ajeitei o cabresto, a rédea, coloquei o pé esquerdo no estribo, passei a perna direita sobre a anca gorda da égua, sentei confortável sobre sela, recolhendo as rédeas entre os dedos. Com um leve toque de esporas sinalei ao animal que a cavalgada, com esta nova idade, 71 anos, começava. Maciamente, numa marcha batida, de triple apoio alternado, e a sobre-pegada, a marcha era em frente e avante.
Os estribos firmavam as vigorosas pernas. Um alivio na rédea facilitava a tarefa de escolher o local onde pisar com as patas ferradas. Cheiro de terra molhada. Lembrei que há 8 dias a cagaita quase caiu. E cagaitera não cai na poeira. Eu sabia que seria feliz nesta nova etapa. Assim como todos os meus…
Procurando fazer o melhor com as condições que temos, vou cavalgando, pedaços de mim vou deixando.



