Estágio certo para ensilagem do milho

Por José Joaquim Ferreira e Walfrido Albernaz * |||||

A bovinocultura no Brasil apresenta um cenário de oscilações que a cada ano agrava-se mais. É necessário fazer uma revisão nos custos da cadeia de produção bovina visando “enxugá-la” o máximo possível para que o produtor, cujo trabalho é o mais árduo de toda cadeia, receba maior remuneração possível pelo seu produto.

No sistema de produção, a alimentação volumosa tem grande importância quer seja em custo de produção ou no valor nutritivo para alimentação do rebanho.

A silagem de milho destaca-se como o melhor dos volumosos ricos em energia, para alimentação dos bovinos no período da seca. Entretanto, seu custo de produção é alto devido aos gastos com sementes geneticamente melhoradas, adubações pesadas, herbicidas e inseticidas quando necessário. Acrescenta-se ainda o custo de ensilagem que envolve equipamentos especializados.

As recomendações técnicas para produzir silagem de milho têm de ser seguidas com rigor, pois, o custo por tonelada de matéria seca produzida é proporcional à quantidade de perdas no processo, ou seja, maiores as perdas na cultura, na ensilagem ou no fornecimento aos bovinos, maior o custo do leite e carne produzidos pelos animais alimentados com ela.

A produção de matéria seca, nas condições de campo, concentra-se de 10 a 18 toneladas de matéria seca, que equivale de 30 a 54 toneladas de massa verde por hectare. Uma cultura tecnicamente bem conduzida resultará em alta produtividade, se não houver restrições como baixa frequência e quantidade de chuvas e ataque de pragas e doenças.

PONTO DE COLHEITA DO MILHO PARA SILAGEM

Um evento crítico na produção de silagem de milho, do ponto de vista econômico e qualitativo é a decisão do momento de início da ensilagem.

A planta de milho inicialmente, cresce acumulando massa verde, e após esta fase, o aumento em produção só se dá pela formação da espiga. Durante o enchimento dos grãos, principalmente com amido, o aumento da produção de massa é através dos grãos que corresponde à fração mais rica em energia da silagem de milho.

Para se obter mais grãos da cultura de milho, ter-se-ia de esperar o enchimento total dos mesmos. Mas com o aumento do enchimento dos grãos, ocorre ao mesmo tempo a secagem da planta, que dificulta a compactação no silo, a redução da digestibilidade da matéria seca da planta sem espiga e por fim o endurecimento dos grãos, o que aumenta a perda dos mesmos nas fezes.

Por outro lado se a planta estiver no inicio do enchimento dos grãos ela terá muita água o que resulta na lixiviação (escorrimento na boca do silo) durante e após a compactação; a fermentação é ruim o que resulta em baixo consumo e a produção de matéria seca é baixa, porque o enchimento dos grãos ficou abaixo do que poderia ser obtido. 

Portanto, o produtor gasta com a implantação de uma cultura produtiva, mas se colher o milho antes do ponto recomendado deixa de aumentar a massa verde colhida que teria maior valor nutritivo do que a silagem mais úmida. Ou seja, deixa de receber mais dinheiro do seu investimento na cultura do milho.

Então, qual é o ponto adequado de colheita do milho para silagem? Tecnicamente, o ponto ideal seria quando a planta tiver em torno de 35% de matéria seca. Mas considerando as condições práticas de fazenda, recomendamos de 30 a 35% de matéria seca. Se o processo de enchimento do silo é mais rápido (máximo três dias) inicia-se a colheita próximo a 35%. Se for mais lento (mais que três dias) inicia-se em torno de 30%.

Pergunta-se: como saber em condições de campo, os estágios da planta que correspondem àqueles teores de matéria seca?

Há vários métodos, mas um deles é associado ao enchimento dos grãos de milho. Ele é chamado de técnica de “linha de leite” do grão. Os passos para fazê-lo são os seguintes:

  • Colher de 7 a 10 espigas na cultura.
  • Despalhá-las.
  • Quebrá-las ao meio.
  • Observar a coroa de grãos na face anterior da ponta da espiga.
  • Dar uma nota (número) de acordo com a linha de leite do grão.
  • Somar as notas e tirar a média.

A tabela de notas é a seguinte:

  • Leitoso (milho cozido): 1
  • Pastoso (pamonha) : 2
  • Farináceo (início do endurecimento do grão): 3
  • ¼ linha de leite: 4
  • ½ linha de leite: 5
  • ¾ linha de leite: 6
  • Grão duro (camada preta): 7

A consistência do grão de farináceo (nota 3) corresponde ao teor em torno de 30% e a posição da linha de leite na metade do grão (nota 5) corresponde em torno do teor de 35% de matéria seca em muitos cultivares de milho. Na Foto 1, 2 e 3 observam-se posições da linha de leite nos grãos de milho.

FOTO 1 – Estágio de maturação início do endurecimento do grão (farináceo)
FOTO 2 – Estágio de maturação ½ Linha de Leite no grão

                  

FOTO 3 – Estágio de maturação grão duro (camada preta)

EFEITO DO TEOR DE MATÉRIA SECA DA PLANTA DE MILHO NA PRODUÇÃO DE LEITE

Na Tabela 1 é mostrado, quanto se ganha em produção de grãos (enchimento) e se perde na planta sem espiga (secagem das folhas) em uma cultura de milho e o equivalente de leite com base saldo de energia acumulada que seria produzido por hectare, de um estágio para outro. Estes resultados foram obtidos de um experimento conduzido na Fazenda Experimental Santa Rita da EPAMIG.

TABELA 1 Aumento da produção de grãos e de perdas na planta por hectare, entre diferentes estágios dos grãos na planta de milho e o correspondente aumento de leite produzido (base saldo de energia acumulada).

Consistência do grão               Grãos          (kg)          Fração        vegetativa             (kg)    Equivalente            leite          (kg/ha)
Do leitoso para farináceo     + 1624          – 391        + 3410
Do farináceo para ½ Linha de leite     +   578          – 160        + 1324
Do leitoso para ½ Linha de leite     + 2002          – 551        + 4734

Nesta Tabela observa-se que do estágio leitoso, cujo teor de matéria seca era em torno de 25%, ao estágio farináceo, este com teor matéria seca próximo de 30%, acumulou-se mais 1624 kg de matéria seca de grãos, sendo perdido no mesmo período 391 kg de fração vegetativa, (principalmente folhas secas) por hectare. O saldo de energia resultante no período seria suficiente para um aumento de 3410 kg de equivalente leite por hectare. Do estágio farináceo ao ½ linha de leite o acúmulo de grãos foi 578 kg (matéria seca) e a perda de fração vegetativa de 160 kg, resultando em um saldo de energia acumulada suficiente para produzir cerca de 1324 kg de equivalente leite por hectare. A ensilagem no estágio de grão leitoso, ao invés de ½ linha de leite, estaria deixando de colher por hectare, volumoso suficiente para produzir a mais 4734 kg de equivalente leite por hectare. Percebe-se em termos de valores, o prejuízo que o produtor teria por não ensilar o milho no estágio adequado de matéria seca das amostras. A faixa recomendada de colheita do milho para silagem é de 30 a 35% de matéria seca que para muitos é considerado “passado”, optando pela faixa de 25 a 30%, chamado ponto de “pamonha”. Quando o produtor não está bem preparado para fazer a ensilagem no tempo recomendado (até três dias) ele inicia a ensilagem antes da faixa de matéria seca recomendada para evitar o ponto de ensilagem “passar”. É importante ressaltar quanto de acumulo de matéria seca o produtor perde, se ele ensilar o milho com baixo teor de matéria seca, com base nos dados da Tabela 1. No caso de a ensilagem ser feita após a faixa recomendada, aumenta-se a perda de grãos nas fezes e a massa picada é de mais difícil compactação. Se o produtor tiver acesso a ensiladeiras potentes com acessório de processamento da massa picada (trituram os grãos em partículas finas e esmagam as partículas fibrosas) e ter grande capacidade de colheita por hora, pode optar por teores mais pontuais de matéria seca na ensilagem de milho.  

CONCLUSÕES: Se o milho for colhido antes ou após o ponto recomendado, ocorre perda significativa na produção de silagem efetivamente convertida em carne e leite por hectare. Decisões erradas levam ao aumento do custo de produção de silagem e consequentemente ao aumento do custo de produção de carne e leite.

Para evitar esta perda, o estágio recomendado para ensilagem do milho é quando ele possuir de 30 a 35% de matéria seca, que corresponde aproximadamente ao estágio do grão com consistência farinácea até o estágio de ½ linha de leite (metade do grão endurecido).

Ressalta-se a importância da associação entre pesquisa e extensão para a consistência das informações que são compartilhadas com os produtores, e do envolvimento destes produtores em eventos técnicos para discussão de suas experiências e de novas tecnologias, gerando resultados práticos que melhoram o desempenho da atividade pecuária.

* José Joaquim Ferreira, Engenheiro agrônomo, PhD e Walfrido Albernaz, engenheiro agrônomo – Emater MG

Compartilhe :

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

×